sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Bruma




virgem de esmalte rosa pink promiscua de pés descalços jeans no lixo tecidos macios. peitoral pálido cordão de prata umbigo pra dentro burra demais. beijos sempre molhados cachos cheios de nó ombro ossudo que adora ser tocado. feminino na sinceridade na calcinha enfiada sacanagem na língua presa a malícia no travesseiro os planos. em um metro e cinqüenta e sete e meio tua mãe tua vadia tua escrava tua amiga tua mestra tua mendiga favorita tua avó tua amante de mil vidas tuas cuecas usadas tuas bebidas vomitadas tua santa tua parte inteira tua metade tua filha tua inocência. par de bundas viajantes excitante enlouquecedora convencida confusa prolixa intolerante engraçada boboca. violenta dedo na boca esquece o desodorante liga bêbada pro amante entra no mato sozinha . poros do sensível lâmpada voltaireiana matéria eterna pra escola. dilema preto no branco sussurros no meio do pranto abraço que não chega cereja no copo vazio. lago de violetas no olhar sexo dos anjos toque pagão suor de avelã profissão amar. gozo velado aperta fino a primeira é a melhor berra na dor saboreia a tangerina do poder. brilho infinito do corpo de luz de um sino da centelha divina boca oceânica piada da paz.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Ar



enquanto respiro escolho a roupa que vou colocar quando sair do banho. e assim enquanto eu respiro esfrego o creme de castanha nas minhas canelas. canela eh o cheiro que sinto do incenso aceso do lado de fora da janela. sinto enquanto respiro.
sento de frente ao meu som de luz verde turquesa e escuto a voz de uma das minhas cantoras favoritas. enquanto respiro.
enquanto respiro gargalho com as criancas e durante o trabalho com elas vivo minha crianca que danca como bailarina de caixinha de musica.as pessoas em volta acham engracado, eu deito, rolo, pulo e falo alto, empolgada com meu corpo que descobre outra vida. respiro enquanto me alimento do prazer da companhia deles.
enquanto respiro decido mudar do acustico pro metal. vibe que transforma malucos segundos. lembro dele me dizendo que queria ser astronomo. eu entro na onda sem contar pra ele que pensei em ser astronoma. ele me diz que tem de enteder demais de fisica e matematica. frase que apresenta a mestra intelectual por tras da porta dupla.
oxigena meus globulos movimenta meu sangue. circula por meus membros. aquece minhas geleiras, transmuta o doente, organiza as sinapses e recebe asas. entra pelas cavidades, me possue, fala franco a minha libido, entra em combustao e pela minha garganta me da voz. enquanto respiro.
enquanto respiro coloco inteiro na boca o toblerone que ela me deu enquanto secretamente me conta como foi doce sua viagem. o sabor nos meus dentes, na minha lingua e genviva me tornam mais encarnada. encantada. lembro da irma dela, das nossas conversas, e do nao dito. por pouco tempo. fecho os olhos e lembro do abraco delas enquanto respiro. acho que nunca falei como sao unicas pra mim, talvez nem imaginem, mas sabem.
sincronicidade eh tudo. barulhento entra corredor adentro. me alarma da sua presenca e tao barulhento quanto, libera seu ar. por um lugar mais ao sul - informacao indispensavel. me fez refletir sobre os curiosos momentos de descarga do meu ar. sim, tudo que entra sai. por que ali e pra onde vai? respiro no final da frase pra ter certeza que o cheiro ruim ja passou.
falo da transformacao que leu no meu pulso antes de me tocar. sempre acreditei em voce. hoje as pontas dos meus dedos se encarregam de circular minha gratidao a toda forma de natureza.


rios plantas ceus infinito cores mar carne osso veiculo pronomes buracos luz asas pes alma




domingo, 16 de agosto de 2009

vanilla vibe





Foram os três quartos de meias vermelhas com corações rosas que preservaram seu amor durante aquela madrugada. O resto foi entregue ao vento que entrava pela fresta da janela do sexto andar. Já não era igual, de jeito nenhum era igual, a não ser nas suas loucuras. Eram os mesmos seres viscerais deitados, permeados pelos flocos brancos do mês de outubro do ano passado.


Conta nos dedos e mesmo assim perde a conta, e quando descobre o tempo que passou já não lembra mais porque contava. E não lembra mesmo. Divaga sobre aquela porta larga de madeira em branco com flores trabalhadas de cima a baixo. Por ela entravam os raios de sol que esquentavam o mármore do seu chão. Calmaria ao ver imerso na água os restos do anterior. Os restos que se deslocavam de um vaso a outro porque não queriam ir. Descobriu naquele espaço uma tampa, a curiosidade encontrou suas roupas usadas emboladas. Numa tentativa de pescar o cheiro do vivido, enfia tudo buraco a dentro e fecha aquela tampa. Ninguém imagina como estava em paz.


Vinte e sete dias depois. Ironicamente ou não, naquela noite estavam enroladas e guardadas no buraco negro com alças que gosta de carregar sobre o ombro direito. Junto a identidade, ao dinheiro, aos papeis com anotações, suas chaves e um casaco; estavam elas. E dessa vez, antes de meia noite se despediu ... de vez. O par de meias vermelhas que com ele viveu. Preservou o seu amor.